O ‘profissionalismo’ supõe o ‘marketing de relacionamento’, que você teça suas ‘redes’ de contato, que você se ‘atualize’ constantemente; mais, exige mesmo é que você se antecipe às ‘novas tendências’ e que não perca o ‘foco’ em seus objetivos. Ah...ejamais aborde a manga chupada pela Camila Pitanga a partir da noção de ‘fidelidade do cliente’ à fruta, mas sim à contemporânea visão da ‘lealdade’ da pitanga à manga. Confesso que eu não viveria sem esses ‘conceitos’ tão lapidares, esposados por gente como Wanderlei Luxemburgo, Roberto Justus, Ali Kamel, por quadros universitários das ‘top’ em Administração, enfim, por toda essa excelência que sabe que o sucesso é uma escolha. Ai, que lindo: “Amo muito tudo isso”.
Ia falar dos odiosos anglicismos do marketing; decidi que depois abordo esse assunto. Em seguida, creio que em função do meu desgosto com o futebol atual, as sinapses da memória me trouxeram à lembrança o médio volante Pires e o armador Mendonça. Desses nomes, nem tão brilhantes assim, vieram-me, preguiçosas, essas belas inatingíveis das fotos: atendendo impassíveis à inconfessável obsessão do moleque que batia umas pelas chacretes. E viva o glorioso esporte bretão!
Como se nada tivesse acontecido– como se você, e somente você (não o outro, jamais!), devesse aceitar a canalhice alheia aprovando bovinamente o revés da máxima“no dos outros é refresco” –espera-se que você faça as devidas loas e convenientes saudações aos que te usa(ra)m e abusa(ra)m. São os refinamentos próprios do que se convencionou chamar ‘bons modos’. Mas para quê realmente servem os tais 'bons modos', hein?!
"(...)Retoma inestimável atualidade nos dias que correm – ou talvez fosse mais honesto dizer, nas horas que urgem - a frase bordão proferida pelo presidente Franklin Delano Roosevelt no famoso discurso de posse, em março de 1933. Em meio à Grande Depressão, que destruiria 25% dos postos de trabalho nos EUA, o político de origem conservadora, mas que passaria à história por ter abraçado instrumentos heterodoxos que permitiram tirar os norte-americanos do fundo da recessão, inaugurou seu mandato com uma advertência que, 79 anos depois, presta-se como uma luva a seus pares de hoje, igualmente assombrados por uma crise de gravidade equivalente, ou pior, que a de então. “A única coisa da qual devemos ter medo é do próprio medo”, disse o líder democrata à Nação, a si mesmo e, agora vê-se, à posteridade.
O economista Luiz Gonzaga Belluzzo, professor-titular da Unicamp e Presidente do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento – que fará um seminário com economistas de todo o mundo para discutir a crise, nos dias 6 e 7 de novembro, no Rio - está preocupado com a semeadura “insandecida” do medo no debate econômico do país no momento.
“O governo”, adverte cuidadosamente o sempre afável professor da Unicamp, “está sendo acossado, assim como toda a sociedade, pela demência de um certo pensamento econômico que pode imobilizá-lo”. Aquilo que ele caracteriza como sendo “o pior produto da metafísica ocidental”materializa-se nas últimas horas em editoriais de jornalões conservadorese repercute em discursos de altos decibéis orquestrados pela oposição parlamentar ao governo Lula.
“As pessoas simplesmente abstraem a realidade; divagam sobre uma dimensão que não existe mais: o mundo mudou. Radicalmente”, sublinha.
Ao que parece, não para todos. Na última terça-feira, por exemplo, o PSDB levou para questionar o ministro da Fazenda Guido Mantega, em sua fala no Congresso, uma plêiade de exemplares do que há de mais ortodoxo em termos de raciocínio econômico, matéria-prima como se sabe generosa nas trincheiras tucanas e na de seus aliados de palanques e idéias, os assim chamados “democratas”.
O seleto plantel formado por economistas de banco e de corretoras foi proibido de argüir o ministro. Por certo, Mantega ouviria aquilo que os editoriais vociferavam no mesmo dia em conhecida orquestração: alertas contra a famigerada gastança pública. A escolha da bancada tucana mereceu pelo menos de um alto coturno da agremiação paulista um desabafo não propriamente elogioso às leis de bronze da sabedoria econômica ortodoxa : ”Partido de merda”.
“A situação é muito séria e o governo não pode ter medo de agir”, continua Belluzzo em tom pausado. O professor não costuma se empenhar nos decibéis mas é contundente nas assertivas quando o momento exige: “A demência ensandecida insiste em recitar seu mantra dos livre mercados num momento em que os mercados encontram-se virtualmente pedindo socorro ao Estado”. Nesse ponto seu tom de voz se altera: “Estamos numa corrida contra o tempo: não basta acertar as respostas, é crucial não errar o timming. A resposta adequada ontem poderá ser inútil amanhã – ou hoje”, adverte em entrevista à Carta Maior.
O professor da Unicamp trata sumariamente a ofensiva ortodoxa que já reúne uma fornida trincheira na qual se aboletam impressos quatrocentões, agrupamentos tucanos e demos e que, agora, acaba de receber a chancela do inefável FMI. Das cinzas de uma falência ideológica e financeira, depois de quebrar países urbi et orbi, e a si próprio, por gestão equivocada, o Fundo Monetário, que não encontra mais audiência nem no gabinete de Hank Paulson, o mais novo keynesiano do quarteirão, não hesita em lançar advertências ao governo brasileiro... contra a expansão do "gasto primário".
“Cortar investimento público em meio a uma crise como essa é reeditar a mesma receita que jogou a Alemanha ao nazismo, em 1933”, qualifica Belluzzo, recordando a obsequiosa gestão pró-mercados do chanceler Brünning, na instável República de Weimar dos anos 20/30. Chefe de gabinete da coalizão católica/social democrata, sob a Presidência do Marechal Von Hinderburg, Brünning tangeu então a economia e o povo alemão rumo a um suicídio histórico perpetrado com doses letais de cortes de gastos públicos; erosão das reservas externas; fuga de capitais e conseqüente desemprego galopante.(...)”
“Lançamos um portal de futebol sob medida para: são paulinos”
Eis o destaque garrafal quando o internauta acessa sua caixa de mensagens do ‘yahoo’. O bom senso recomenda rotatividade na chamada, de forma que a propaganda não sinalize preferência; pois se pretende anunciar um 'portal de futebol' para cada clube. Mas a busca da isenção, ainda que através duma simples programação aleatória, está longe da mídia quando o assunto é um de seus times queridinhos. Se você não ‘clicar’ na opção ‘odeio’, a tosca simulação da performance de torcedores do SPFW aparece numa parte da tela. Que beleza! E depois ainda falam que a mídia não ama a bambizada. Ou, pior, dizem que essa superexposição dos leonores resulta da altíssima competência administrativa de profissionais como Juvenal J. Uísque e super-Mac. Isso é que é marketing, hein?! Comovente o profissionalismo.
De uns tempos pra cá, estafado e sobretudo abobado por intermináveis ‘(re)conciliações contábil-gerenciais’, entrego-me apalermado ao jornal e à novela da Globo.Exercício que, a despeito dos depreciativos acima, acolhe meu tédio, preguiça e incapacidade para me entregar a algo melhor. Pode até ser que nos mereçamos, mas essa possibilidade mais do que plausível não me impede de resmungar a ladainha de sempre, conformada e cínica tal qual meu arroto após o jantar:
- que o jornalismo da Globo é uma peça de propaganda ideológica cada vez mais desavergonhada e de péssima qualidade (viram que o ‘jornal nacional’ fixou a visão do Governador Serra sobre a crise nas polícias? Isto é, a idéia de que o culpado do confronto foram, em última instância, os ‘sindicatos’, o PT?);
- que a novela abusa da burrice do telespectador: cenas, tramas e diálogos infantis, (re)produtores dos mais abjetos preconceitos.
“Se ainda é cedo para avaliar a duração da crise do sistema financeiro e sua intensidade sobre a economia mundial, alguns sofismas que, no apogeu do neoliberalismo, foram elevados à categoria de axiomas, desmoronaram como castelos de areia. Tudo que era líquido e estável se evaporou no estouro da bolha de uma economia alavancada em sua própria irracionalidade.
Na agenda dos economistas neoclássicos, inspiradores de executivos e consultores das grandes corporações, não só o Estado era apresentado como uma instituição estranha à "saudável" acumulação, quase uma excrescência que tinha que ficar contida "nos limites de sua atuação ao essencialmente imprescindível" , como o estudo das ações econômicas dos homens poderia ser feito abstraindo-se as suas dimensões éticas, religiosas e políticas.
Para um mercado exuberante nada melhor que um homem sem história. A equação perfeita compreendia a subordinação da política à economia e desta ao cálculo contábil. Nos "não lugares" da modernidade líquida, o homo economicus vagava como fragmento, como parcela que apenas produz e consome. “Egoísta” e “racional”, encontrava-se com outros homens apenas para negociar suas decisões de compra e venda emitidas por intermédio de sistema de preços. Teria, enfim, trocado a possibilidade do devir histórico pelos mercados derivativos. A harmonia estava assegurada por mercados competitivos e desregulamentados. Nada de Estado impondo seus projetos. O contrato social era a lei do valor enlouquecida.
O que lhe sobrava, na visão instrumental dos players do cassino, era a eliminação de subsídios às empresas, cortar gastos sociais e reduzir de forma acentuada os gastos governamentais. Privatizar, descentralizar, desregulamentar. Eis a santíssima trindade da mística dos fundamentalistas de mercado. Um mantra que se reproduziu por quase duas décadas nos centros acadêmicos e editorias de economia.
Quem ousaria duvidar que estivesse em funcionamento na economia uma série de regras novas, e um tanto desconhecidas, embasando um círculo virtuoso que poderia durar muitos anos ainda? Questões como o crescente endividamento de milhões de americanos que contraíam seus débitos para investir na bolsa, mirando um lucro fabuloso em pouco tempo, eram detalhes que só preocupavam os teóricos da obsolescência. Aqueles que teimavam em se opor a um projeto de exercício do poder político que tinha como premissas a refundação da economia de mercado e a reforma do Estado.
E agora? Como ficam todos os credos quando o efeito dominó do sistema financeiro estadunidense leva o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional(FMI) a decretar o fracasso da tentativa de adoção de mercados globalizados? Quando o governo Bush, seguindo a estratégia dos países europeus, anuncia o investimento de US$ 250 bilhões na aquisição de ações preferenciais de bancos privados “para fortalecer a confiança do público no sistema"? O que fazer com os “sábios” vaticínios de Hayek e Friedman. Conceder o Nobel de Economia a Paul Krugman não é mea-culpa suficiente. É necessário bem mais.
É preciso admitir que as políticas de um Estado regulador de mercado podem não acompanhar o ritmo do processo de desenvolvimento capitalista, mas os modelos de regulação keynesianos continuam imprescindíveis para a manutenção do ambiente institucional requerido para momentos em que o modelo da “competição perfeita” revela seu caráter ficcional. Resta, ainda, admitir que talvez a crise do homo economicus não seja acidental, nem meramente econômica. É constitutiva da amoralidade em que opera um modo de produção que tem como " ethos" o lucro a qualquer preço.
A necessidade de formular alternativas contra-hegemônicas nunca se mostrou tão urgente. È hora de a esquerda retomar a leitura de seus clássicos, atualizá-los à luz das exigências contemporâneas, recusando toda e qualquer formulação reducionista.
Para a anomia do capitalismo o único ativo que não perde valor é a barbárie. Esse tem sido o papel menos volátil quando a taxa de lucro mostra acentuado declínio. “