FONTE: desses ‘e-mails’ que rodam por aí, enviado por gente boa, companhia de bar e de samba
1.A CERVEJA MATA?
Sim. Sobretudo se a pessoa for atingida por uma caixa de cerveja com garrafas cheias. Anos atrás, um rapaz, ao passar pela rua, foi atingido por 1 caixa de cerveja que caiu de um caminhão levando-o à morte instantânea. Além disso, casos de infarto do miocárdio em idosos teriam sido associados às propagandas de cervejas com modelos.
2.O USO CONTíNUO DO ÁLCOOL PODE LEVAR AO USO DE DROGAS MAIS PESADAS?
Não. O álcool é a mais pesada das drogas: uma garrafa de cerveja pesa cerca de 900 gramas .
3. A CERVEJA CAUSA DEPENDÊNCIA PSICOLÓGICA?
Não. 89,7% dos psicólogos e psicanalistas entrevistados preferem whisky.
4. MULHERES GRÁVIDAS PODEM BEBER SEM RISCO?
Sim. Está provado que, nas blitz, a polícia nunca pede o teste do bafômetro para gestantes... E se elas tiverem que fazer o teste de andar em linha reta, sempre podem atribuir o desequilíbrio ao peso da barriga.
5. CERVEJA PODE DIMINUIR OS REFLEXOS DOS MOTORISTAS?
Não. Uma experiência foi feita com mais de 500 motoristas: foi dada 1 caixa de cerveja para cada um beber e, em seguida, foram colocados um por um diante do espelho. Em nenhum dos casos, os reflexos foram alterados.
6. EXISTE ALGUMA RELAÇÃO ENTRE BEBIDA E ENVELHECIMENTO?
Sim. A bebida envelhece muito rápido... Para se ter uma idéia, se você deixar uma garrafa ou lata de cerveja aberta ela perderá o seu sabor em aproximadamente quinze minutos.
7. A CERVEJA ATRAPALHA NO RENDIMENTO ESCOLAR?
Não. Pelo contrário. Alguns donos de faculdade estão aumentando suas rendas com a venda de cerveja nas cantinas e bares na esquina.
8. O QUE FAZ COM QUE A BEBIDA CHEGUE AOS ADOLESCENTES?
Inúmeras pesquisas vinham sendo feitas por laboratórios de renome e todas indicam, em primeiríssimo lugar, o garçom.
Às 22:07 deste 30/06/2008, os conselheiros do clube aprovaram definitivamente o projeto de reestruturação do Palestra Itália. Mustafá Contursi foi um dos 03 que votaram contra a ARENA. A vitória foi esmagadora: 167 votos a favor, 03 abstenções e 03 votos contrários.
O Yahoo! Brasil Notícias – em 25/06 às 13:02 – dá exemplo de ‘neutralidade’ ao informaro resultado do IBOPEapontando 31% para Marta e 25% para Alckmin. Como vocês podem ver, a foto da manchete revela o mais cristalino espírito de isenção.
A imprensinha e seus times queridinhos – Flameinhgo, CuríntiaeJardim Leonor - não suportam a ameaça na bola dumPALMEIRAS forte. Quando não mentem, sempre distorcem os fatos, dando-lhes viés negativo. Agora que o Verdão está com um bom elenco, venceu o Paulista, é sério candidato ao título brasileiro 2008 e inicia a construção da Arena Multiuso, a imprensinha entrou em desespero. Os jornais FALHA DO S. PAULO e LANCHE!, as rádios BANDaid e JOVEM TAN tam, todas as emissoras televisivas – em especial as da REDE BOBO e a GAMBAZETA – estão cada vez mais alvoroçados em negar o PALESTRA. Parecem mesmo encabeçar o movimento “NÃO! PALMEIRAS, NÃO!!” A pérola desta manhã está publicada na FALHA DO S. PAULO. A chamada da matéria (?) – ou seria anti-propaganda? – é: “ARENA DRIBLA CRISE NO PALMEIRAS”. (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk2806200813.htm). Eles colocaram, no mínimo, 2 fatos positivos – a boa venda de Henrique para o Barcelona e a construção da ARENA – num contexto deCRISE (qual ?!?!). Ah...e ainda mencionam o termo “salários atrasados”. É simplesmente ridícula a imprensinha!!!!!!
Pode até ser que a mais recente alta nos diversos índices de preços tenha como causa principal um excesso de procura sobre a oferta: eis a clássica ‘inflação de demanda’. Para esse tipo de inflação, restrição do consumo - via aumento das taxas de juros e contenção dos gastos públicos - é até eficaz. É eficaz, mas NÃO É NEUTRA. Uns ganham, outros perdem. Pois bem, mas para o ‘jornalismo’ da imprensinha, economia é ciência exata,inflação é sempre causada por excesso de consumo e restringi-lo é única medida ‘competente’ e ‘responsável’. Não dizem que maiores juros e diminuição dos gastos governamentais resultam em queda do emprego da massa trabalhadora e aumento dos ganhos de quem vive de rendas. Informar isso ao público seria requisito mínimo de isenção. Mas a imprensinha propaga apenas a visão que separa a economia da política. No âmbito econômico estaria o mercado, seus técnicos, gestores, regras lógicas e impessoais. A política seria tão somente o espaço de eleitos pelo que chamam de ‘povinho’ . Os ‘políticos’, quando não apenas corruptos, interfeririam na racionalidade dos mercados, contrariando o ditado pela gestão técnica. A imprensinha nega à política a função de contraponto ao salve-se-quem-puder dos negócios, quando é precisamenteisso que ela é. A imprensinha exclui a política da economia e a economia da política, simplificando a sociedade – vista como conjunto de consumidores homogeneamente ‘esmagados’ por ‘impostos’. Mas, sabemos, essa visão não é ingênua.Amparados pelo conjunto de idéias dos grupos empresariais que a sustentam, os relatos da imprensinha estão mais coerentes com os interesses desses grupos do que com os fundamentos da realidade. Como a imprensinha deve se legitimar como porta-voz da opinião pública, ela procura universalizar seus interesses, expondo aberta ou subliminarmente sua visão dos fatos como sendo a verdade. Ocorre que a imprensinha, nesse movimento em direção à legitimidade, deixa algumas frestas, ocupadas mais cedo ou mais tarde por parcelas da sociedade que se opõem às idéias e aos grupos dominantes. Essas frestas são preenchidas justamente por conta da tão e por isso mesmo execrada política. A propósito, os debates e estudos que o IPEA vem realizando - como o que aponta redução da desigualdade - é exemplar da ocupação de espaços por vozes dissonantes. Márcio Pochmann, presidente dessa instituição vinculada ao Ministério do Planejamento,tem perturbado a imprensinha ao divulgar os resultados das pesquisas que coordena. Não só tem afirmado que a tributação sobre a riqueza é essencial para atenuarmos as diferenças sociais, como também alerta sobre os efeitos negativos que a redução de consumo e o aumento dos juros teriam sobrea nossadistribuição da renda e níveis de pobreza. Por isso, coloquemos as barbas de molho: já já Márcio Pochmann será acusado de algo condenável. Tal como a imprensinha fez com o secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, o economista Pochmann será acusado de censor, nacionalista, populista, comunista, incompetente, ultrapassado e o que mais a fertilidade elitista assim imaginar. Ainda que esses depreciativos, vindos de quem vem, sejam mais elogios do que calúnias, é bom ficarmos atentos. Abra o olho, Pochmann! De resto, ouçam a entrevista que ele concedeu ao, esse sim, jornalista Paulo Henrique Amorimhttp://www.mundorecordnews.com.br/play/1aaa9cba-31f8-460d-9220-620bab418c46 . E visitem o ‘site’ do IPEA www.ipea.gov.br.
Os rendimentos dos trabalhadores brasileiros estão quase 7% menos desiguais na comparação do quarto trimestre de 2002 e o primeiro de 2008, aponta levantamento inédito do Ipea divulgado em 23/06.
O presidente do Ipea, Marcio Pochmann, informou que o levantamento mostra a queda do índice de Gini, que é o parâmetro internacional para medir a desigualdade. "O índice de Gini vai de zero a 1, quanto maior ele é, mas próximo está da desigualdade extrema", disse. Pochmann afirmou que "até o final do mandato do presidente Lula o índice de Gini deve chegar a 0,49, o menor desde 1960". O levantamento mostra, conforme tabela acima, que o Índice de Gini caiu de 0,540 em 2002 para 0,509 em 2007.
Pobres recuperam quase cinco vezes mais renda que os ricos
O Índice de Gini melhorou porque a recuperação da renda dos mais pobres é quase cinco vezes maior que a recuperação da dos mais ricos. Em outras palavras, os trabalhadores mais pobres tiveram aumentos salariais maiores de 2002 a 2008.
Participação dos salários no PIB se mantém estável
Apesar da queda no Gini dentro dos rendimentos dos ocupados, a participação da renda do trabalho no PIB está relativamente estável. O estudo revela que "ainda patinamos sobre esse problema: a necessidade de uma melhor distribuição de renda entre trabalho, capital e governo".
Os dados completos do levantamento apresentam a renda média do trabalho atualizada até 2008, por décimos da população. Ou seja, valores de renda desde os 10% mais pobres até os 10% mais ricos. Os dados vêm das seis principais regiões metropolitanas do país. O levantamento, intitulado "A queda da desigualdade entre as pessoas ocupadas" e divulgado no Comunicado da Presidência nº 6, foi feito a partir dos microdados da PME (Pesquisa Mensal de Emprego) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.
Texto extraído do livro "O amor acaba", Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, pág. 21, organização e apresentação de Flávio Pinheiro.
Não, não é afrobeat. Mesmo porque, nesse gênero, Kiko Dinucci só conhece Fela Kuti, e de sua música sabe muito pouco. Também não é só samba, ainda que a base de todo o trabalho que vem desenvolvendo há alguns anos seja calcada no ritmo, mais especificamente em canções nascidas e criadas na metrópole paulista, difundidas por mestres do calibre de Adoniran Barbosa, Geraldo Filme e Raul Torres.
Paulistano e urbano. É assim que o compositor define o seu mais recente disco, que apresenta hoje, no Ó do Borogodó, ao lado do BandoAfroMacarrônico. O título do álbum, Pastiche Nagô, tem um significado que se estende ao nome do grupo que o acompanha: uma referência às nossas origens africanas, outras latinas e algumas americanas. ''Quando minha mãe vai fazer alguma mistura para comermos, ela costuma dizer assim: ''Vou preparar um pastiche.'' E põe um pouco de tudo na panela - macarrão, ovos, carne'', conta, aos risos.
O álbum é assim também. Cada músico do Bando trouxe uma influência que, para muitos artistas, poderia soar bastante díspar e levar à desarmonia, mas que para eles foi como peneirar uma farinha de rosca sobre o feijão e ainda jogar uma pitada do caldo da pimenta-do-reino sobre a carne. A começar pelo próprio Kiko, que tem como primeiro instrumento o violão, mas nunca se deu muito bem com ele. ''Gosto de tirar um som mais percussivo. Por isso, sempre admirei o Gilberto Gil, o João Bosco. Toco o violão como o baixo, mais ligado a um groove de funk'', conta.
A vocalista Railídia, por sua vez, é paraense e adicionou à mistura o carimbó, enquanto o percussionista Julio Cesar trouxe um quê de música caribenha. Ouça quatro das faixas em http://afromacarronico.blogspot.com e diga se não é de dar água na boca.
Serviço
Kiko Dinucci e BandoAfroMacarrônico. Ó do Borogodó. Rua Horácio Lane, 21, Pinheiros, telefone 3814-4087. Hoje, às 22 h. Ingressos R$ 15
“O humor é um conceito geralmente aplicado aos indivíduos. Dizemos, de nossos pares, que são bem-humorados, que têm senso de humor ou que estão de mau humor. O conceito de humor também pode ser aplicado, correndo-se certo risco de fazer generalizações indevidas, a países. Se aceitarmos tal risco, então podemos afirmar que nosso instável país já experimentou vários humores. Pindorama já teve a alcunha de tristes trópicos, local de exílio e desterro, já foi a varonil nação do futuro, a terra ufanista do “ame-o ou deixe-o” e o eufórico e barulhento país do carnaval.
Nos anos 1980, nosso humor mal resistiu às más notícias do front econômico. Flertamos com a depressão (depois da recessão), tornamo-nos violentos e quase enterramos nossa combalida cordialidade. Na década seguinte, nosso humor sofreu com as turbulências das mudanças econômicas, perdemos nossas ilusões políticas e ficamos mais céticos. Agora, por obra da providência divina e do mercado de commodities, vivemos um interlúdio bem-aventurado, catalisado por boas- novas, milagrosamente enfileiradas e cuidadosamente exploradas. Aqui e acolá, tentam nos convencer de que nunca fomos tão felizes.
Este modesto ensaio propõe uma singela contribuição ao entendimento das variações do humor nacional. Especula este escriba que a nação pindoramense abraçou, desde meados da última década, um novo humor, um humor catalisado pela adoção da cartilha neoliberal na economia e pela ascensão do gerencialismo no mundo das empresas e do trabalho.
Como noutras plagas, o novo humor incentivou o individualismo, transformou reclusos executivos em celebridades e incentivou profissionais a se verem como marcas de sabão, a serem incessantemente promovidas e vendidas, pela melhor oferta, no mercado de trabalho. E não ficou por aí. O novo humor ultrapassou as fronteiras corporativas, ganhou as ruas, a vida social, o governo e as artes. Nada lhe escapou. Talvez ele não seja, ainda, o humor oficial, absoluto, como ao norte do Rio Grande, mas já é um humor de referência, cujos desígnios não são sequer discutidos, porque foram assimilados e tornados “naturais”. Veremos, a seguir, uma singela evidência de sua existência. Em seguida, exploraremos suas origens e suas manifestações.
Um antropólogo que decida passar alguns quartos de hora em um escritório executivo poderá observar in loco alguns traços curiosos do mundo corporativo. Quiçá possa até mesmo estabelecer hipóteses sobre o imaginário e o comportamento de seus habitantes. Pelas estantes e mesas, o visitante encontrará pitorescos livros de gestão e vistosas revistas de negócios. Provavelmente, se assombrará com o exotismo e a criatividade dos títulos e das manchetes. A literatura de negócios e de gestão mistura a estrutura das fábulas infantis, a liberdade criativa da ficção científica e o apelo pseudopsicológico da auto-ajuda. Os autores do ramo parecem ter especial apreço por hipérboles e metáforas. Não temem o ridículo. Alguns parecem agir sob inspiração messiânica, seguros de que serão compreendidos, e imitados, por seus rebanhos.
Qualquer gerente, ou candidato a gerente, sabe que a ascensão profissional está condicionada ao domínio de um intrincado vocabulário, um palavrório cheio de anglicismos, neologismos e siglas. Aos desavisados, as idéias parecem densas e significativas, porém os conceitos são irritantemente imprecisos, vagos. Parece ser este o segredo do encontro entre a destrambelhada oferta com a não menos destrambelhada demanda.
Alguns gestores contemporâneos apresentam comportamento maníaco-depressivo: seu humor oscila entre momentos marcados por temores e preocupações com a própria sobrevivência e momentos de euforia, marcados por sonhos de grandeza e pela elaboração de estratégias de ascensão. Muitos leitores adotam a literatura de negócios e gestão com fervor religioso. Tratam-na como guia espiritual para enfrentar chagas e oportunidades da vida corporativa.
“Nem sempre foi assim. O espetáculo da vida corporativa já foi mais sóbrio, sem a apelação e a pirotecnia atuais. Há duas décadas, quem visitasse o escritório de um executivo, se depararia com um ambiente diferente do atual, com decoração mais comportada. No centro, uma mesa de madeira escura, as gavetas trancadas à chave. Ao lado, um arquivo metálico de pastas suspensas, de cor verde oliva, igualmente fechado. Junto à parede, uma estante impecavelmente arrumada, a exibir manuais técnicos e, vez por outra, biografias de Winston Churchill e do General Patton. No meio do papelório, a conferir pompa e circunstância ao ambiente, pastas, desenhos e cadernos de folhas quadriculadas, repleto de números e contas. Há duas décadas, o ocupante da alcova burocrática era um austero empresário, preocupado com problemas da linha de produção, com os controles de preço impostos pelo governo e com a inflação. Seu dia era ocupado com a leitura e análise de relatórios, a realização de cálculos.
A mudança ocorrida nas duas últimas décadas nos escritórios corporativos reflete mais do que tendências decorativas. O que ocorreu foi uma mudança de forma e conteúdo do trabalho gerencial. Faz parte do que os especialistas chamam hoje de gerencialismo, uma história ainda mais ampla e antiga, de mais de cem anos, cujos efeitos são sentidos no nosso dia-a-dia, porém nem sempre notados ou compreendidos.
O gerencialismo é usualmente entendido como um conjunto de teorias, métodos e práticas, as quais evoluem ao longo do tempo e destinam-se a garantir o melhor desempenho possível para as empresas. O gerencialismo é também visto como uma ideologia, prima-irmã do neoliberalismo, que tem na base a crença de que a aplicação de melhores ferramentas de gestão pode resolver problemas empresariais, sociais e econômicos. Seu surgimento ocorreu no início do século XX, com a criação das escolas de gestão. Nas primeiras escolas norte-americanas, o corpo de professores era formado por gente trazida diretamente das fábricas, para partilhar sua experiência prática com os pupilos. Embora parecesse um caminho natural, o expediente passou, com o tempo, a ser criticado. Até porque uma solução boa para uma empresa pode causar um desastre em outra.
A primeira tentativa de escapar dos limites do conhecimento estritamente prático e trazer ciência para a gestão se deu pela adoção dos princípios de “gerenciamento científico”, de Frederick Winslow Taylor (1856-1915), o mestre dos cronômetros e dos estudos de tempos e movimentos. Taylor foi um engenheiro obcecado por eficiência industrial, que legou ao mundo os famosos estudos de tempos e movimentos.
Também é de sua lavra o princípio da separação entre o trabalho de planejamento, realizado pelos gerentes, e o trabalho de execução, realizado pelos trabalhadores. Consta que ele próprio fracassou, em várias oportunidades, como consultor industrial. Entretanto, seus princípios e métodos perduraram, marcando gerações de administradores e fundamentando métodos de gestão nos mais variados setores de atividades. Semelhanças entre a cozinha das lanchonetes fast-food, os escritórios de empresas estatais, as linhas de montagem de automóveis e os call centers são bem mais do que coincidências.
Nas décadas posteriores, ocorreram novas tentativas para envernizar a tosca estrutura conceitual do gerencialismo e lhe conferir ar de ciência respeitável. O esforço surtiu efeito: a administração se tornou uma profissão reconhecida e popular, e o seu campo científico ganhou reputação e respeito entre outras comunidades. As escolas norte-americanas de gestão tornaram-se elas próprias grandes negócios e se espalharam pelo mundo. Comunidades de pesquisadores, inspiradas pelo modelo ianque, espalharam-se pelo planeta e geraram clones.
No entanto, não faltam crises e críticos, a denunciar a inutilidade das pesquisas científicas realizadas nas universidades e a incapacidade das escolas de preparar gestores capazes de atuar no mundo real. Outra praga que afeta o campo é o gosto dos executivos por modas gerenciais, incessantemente promovidas por consultores, jornalistas especializados e professores. Por sua vez, historiadores do gerencialismo criticam sua falsa neutralidade e o seu conservadorismo. Segundo tais críticos, além de constituir per se uma ideologia do capital, o gerencialismo teria consolidado princípios de hierarquia, planejamento e racionalidade próprios das organizações militares. Isso teria ocorrido após o fim da Segunda Guerra Mundial, com o retorno dos militares norte-americanos e sua incorporação à vida civil, havendo depois se propagado e consolidado ao longo de toda a Guerra Fria.
A partir dos anos 1980, o gerencialismo sofreu forte impulso, decorrente da adoção das chamadas políticas neoliberais. O movimento, como se sabe, teve início no Reino Unido e nos Estados Unidos. Pontificando sob um país decadente, a primeira-ministra Margaret Thatcher apostou seu mandato na recuperação de valores vitorianos de trabalho duro, motivação, ambição criativa e independência, adaptando-os ao momento. Do outro lado do Atlântico, Ronald Reagan cruzou o desfiladeiro que partia da depressiva Era Carter, buscando a salvação no individualismo e no empreendedorismo.
O novo humor alimentou e foi alimentado pela adoção de políticas neoliberais. Cada um em seu nível de atuação, eles se casaram, se complementaram e iniciaram uma feliz vida a dois. O gerencialismo estava para as empresas e para os indivíduos assim como o neoliberalismo estava para as instituições e para os países. Reformado pelo humor emergente, o gerencialismo passou a ser visto como a melhor resposta aos desafios da globalização, senão a única resposta para evitar o declínio econômico de empresas, de regiões e de países. Seus valores, modelos e técnicas migraram rapidamente do Reino Unido e dos Estados Unidos para outros países desenvolvidos e, então, para a Europa do Leste, Ásia e América Latina.
Empresas e governos abraçaram rapidamente o novo credo. Cinco princípios compuseram um ideário que rapidamente se consolidou: primeiro, a crença inabalável na liberdade de mercado (o retorno da “mão invisível”). Segundo, a visão dos indivíduos como empreendedores de si mesmos (you Inc., copiado no Brasil como Você S.A., que se tornou título de revista de auto-ajuda). Terceiro, o culto da excelência como meio para o desenvolvimento individual e coletivo. Quarto, a crença de que as tecnologias gerenciais são válidas em todas as latitudes, longitudes e altitudes. E quinto, que estas mesmas tecnologias gerenciais, por suas qualidades (e também por seus poderes mágicos) são capazes de garantir os melhores resultados para as empresas.
Com o tempo, o novo humor ganhou status de credo, e este organizou uma igreja em torno de si. A sustentá-la, três vistosos pilares: as empresas de consultoria, as escolas de negócios e a mídia de negócios. Cada um destes pilares contribuiu, à sua maneira, para o aperfeiçoamento do novo credo. Abençoados na união, os componentes desta sagrada trindade cresceram e se multiplicaram.
“Pindorama absorveu o novo credo com algum atraso, porém abraçou-o com vigor de noviço. Como em outros países, aqui também o grande impulso veio das reformas econômicas neoliberais. Desde o início do século XX, a condução da economia local foi marcada pela falta de apreço à ortodoxia. No entanto, no fim dos anos 1980 e início dos 1990, o Brasil passou a liberalizar a economia e a seguir as cartilhas recomendadas pelos organismos internacionais. As mudanças decorrentes – os programas de privatização, o movimento de fusões e aquisições, o aumento da competição entre empresas e a terceirização – geraram, como em outros países, forte demanda de serviços de consultoria e educação, e contribuíram para criar um terreno fertilíssimo para o avanço do novo credo.
Consultores, educadores e editores responderam prontamente à nova demanda. As maiores empresas mundiais de consultoria aqui se instalaram ou, se já instaladas, aumentaram seus quadros e ampliaram suas atividades. Durante toda a década de 1990, a indústria do conselho instigou corações e mentes a abraçar as novas ondas gerenciais que iam surgindo no horizonte. As escolas de negócios também cresceram vertiginosamente. Um de seus mais vistosos produtos, o MBA, foi associado a propriedades mágicas, como um passaporte capaz de levar seu titular para posições de destaque no topo da pirâmide corporativa. A mídia de negócios não ficou atrás. Ela cresceu e prosperou, traduzindo, adaptando e criando incansavelmente novos títulos.
A mídia de negócios é, aliás, o melhor ponto de observação do novo humor e do novo credo. O leitor que se dispuser a um breve mergulho nas revistas e nos livros de gestão notará facilmente a homogeneidade de conteúdo e estilo. Como uma companhia teatral de peça única e carreira ininterrupta, a mídia especializada replica edição após edição, livro após livro, seus conteúdos. Aqui e ali, pequenas adaptações e mudanças, apenas para garantir o sabor de novidade a um modelo que é considerado um grande sucesso.
No teatro corporativo retratado na mídia, o palco é sempre o mundo globalizado, habitado por empresas transnacionais e profissionais cosmopolitas. Os personagens são freqüentemente gerentes heróis que, por seus feitos extraordinários, transformam-se em celebridades. Suas realizações são validadas por experts acima de qualquer suspeita, gurus da consultoria ou professores de grandes escolas de negócios. As sagas são narradas à moda das fábulas infantis, temperadas com grandes desafios e impressionantes vitórias. Não há espaço para ambigüidades e meios-tons: certo e errado, bom e ruim, superior e inferior. Paradoxos e contradições não existem e o pragmatismo resolve todos os dilemas: “Vivemos em um mercado livre e vitorioso, de destino irreversível, no qual as empresas buscam constante renovação para se manterem competitivas, e seus funcionários devem pensar e agir como empreendedores autônomos e responsáveis”.
Como em toda igreja, também no templo do gerencialismo uma prática de cultos se estabeleceu. Em lugar de padres e sacerdotes, subiram ao púlpito gurus e curandeiros. Em lugar de elegias e preces, passaram a ser compilados e disseminados pungentes testemunhos de sucesso empresarial. Em lugar de histórias de redenção individuais, foram identificadas histórias de redenção empresarial. Pouco pão e muito circo. Para manter o público em contínuo êxtase, foram adicionados gurus locais aos já renomados, porém algumas vezes envelhecidos, gurus estrangeiros. Para adornar os templos, foram providenciados ícones, ídolos recém-canonizados, por façanhas reais ou fabricadas, à frente de grandes corporações.
Embora o novo credo seja único, monolítico, seus cultos são sempre renovados. Os sacerdotes do gerencialismo estão sempre próximos de seus fiéis. Eles, na verdade, confundem-se com seu rebanho. Consultores aperfeiçoam permanentemente seus modelos e ferramentas durante os projetos realizados nas empresas. Jornalistas mantêm amplas redes de contatos, das quais extraem as “últimas novidades”, editando-as e dourando-as para seu público. Professores, em cursos executivos, ensinam tanto quanto aprendem com seus estudantes.
Sólida, a nova igreja avançou firme e forte na troca de milênios. Ela passou quase incólume pelo estouro da bolha da internet e, em Pindorama, superou com tranqüilidade o avanço da estrela vermelha. Acreditou na onisciência, na inevitabilidade das eternas forças do mercado. Não se abalou. Apostou na neutralidade, reformou aqui e acolá seu discurso e seguiu imperturbável seu curso. Alguns gurus perderam sua aura, mas foram prontamente substituídos. Algumas modas feneceram, sob o peso de seu fracasso, mas outras rapidamente surgiram.
O novo humor e o novo credo ultrapassaram as fronteiras da economia e dos negócios. Avançaram pelos órgãos de governo, pela educação, pela saúde e pelas artes. Sua presença é discreta, porém visível. Empreendedorismo, sucesso e carreira são hoje temas recorrentes nos jornais, nas revistas semanais e até nas publicações femininas. As revistas de celebridades e as revistas de negócios tornaram-se primas próximas, a partilhar valores e estilos, e, eventualmente, editores e jornalistas.
Jovens vestibulandos hoje tomam decisões de escolha de carreira com base na avaliação futura do mercado e em conceitos de retorno sobre o investimento. Profissionais recém-formados sentem-se cada vez mais atraídos por ganhos rápidos no mercado financeiro. Em todas as faixas etárias, cresce o fascínio por criar negócios, tornar-se executivo ou empresário. A paixão pela carreira (rápida) substituiu a paixão pelo trabalho (sério). A conversa de negócios segue invadindo a vida social, as rodas de amigos, as relações.
Talvez tenhamos de aceitar a chateação como efeito colateral associado ao progresso econômico. Ou, quem sabe, tenhamos apenas de esperar pacientemente até que seu ciclo se complete e um novo humor lhe tome o lugar. E desejar que seja menos aborrecido do que o atual.”
*Thomaz Wood Jr, Professor da FGV-Eaesp, é um dos mais respeitados estudiosos das novas tendências de gestão do País. Autor dos livros Gurus, Curandeiros e Modismos Gerenciais (Atlas) e Organizações Espetaculares (Editora FGV), é colunista de CartaCapital desde 1996.
Fonte: edição comemorativa do nº 500 da CARTA CAPITAL - publicada nesta semana.
Não é de hoje que o ‘noticiário econômico’ privilegia os índices financeiros em detrimento da evolução do emprego ou do PIB. Agora, então, que diversos institutos apontam taxas inflacionárias acima da expectativa inicial, os comentaristas andam a babar sua ciência. Teteretetê pra cá, teteretetê pra lá, chegam quase unanimemente à mesma conclusão. Num tom a meio caminho entre o grave e o eufórico, recomendam: o remédio deve ser amargo! O originalíssimo emplastro seria a restrição do consumo, mediante acentuada elevação das já altíssimas taxas de juros. Nenhuma outra alternativa é apontada, muito menos se revela quais seriam os ganhadores e os perdedores desse ‘ajuste’. Isso seria demais pra quem se diz neutro, mas não é.
A propósito da ‘neutralidade’, leiam e ouçam no excelente!!! FUTEPOCA (link abaixo) um momento glorioso de isenção de nossa mídia.